O GUIA conversou com um especialista em memória para saber por que temos “brancos” às vezes – e o que fazer para evitá-los.

Um dos grandes medos dos vestibulandos é o de “dar branco” na hora de fazer uma prova. O branco, ou bloqueio, é a incapacidade temporária de recuperarmos uma informação aprendida. Nós temos consciência de que sabemos, mas não conseguimos recordar – e o dado parece estar tão próximo de ser lembrado, que dizemos que “está na ponta da língua”.

A boa notícia é que dá para evitar isso. E, mesmo se rolar na hora da prova, não há motivo para desespero. “É importante que o estudante esteja ciente de que ele não esqueceu: o conteúdo está em seu cérebro, mas temporariamente inacessível; portanto, sem pânico!”, garante o pesquisador em psicobiologia e especialista em memória Cleanto Rogério Rego Fernandes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

A melhor forma tanto de evitar quanto de lidar com o “branco” é entender por que ele acontece. Para isso, leia a conversa que tivemos com Cleanto:

GE: Por que acontece de “dar branco” às vezes?

Cleanto: O bloqueio geralmente ocorre em situações estressoras. Nessas situações, as glândulas adrenais (que ficam logo acima dos rins) liberam o hormônio cortisol na corrente sanguínea. Esse hormônio irá promover alterações no funcionamento de várias partes do corpo, inclusive o cérebro. Isso afeta as funções cognitivas e, no caso da memória, prejudica a recordação. É natural que tenhamos dificuldade de lembrar algo quando estamos numa situação de estresse. Isso faz parte do repertório de alterações fisiológicas e cognitivas que apresentamos nessas situações, as quais incluem também taquicardia (coração acelerado), boca seca e sudorese (especialmente na palma das mãos).

GE: O “branco” costuma ter uma duração definida?

Cleanto: Na maioria dos casos, o bloqueio passa pouco tempo depois, com a pessoa lembrando a informação em um ou dois minutos. Mas, algumas vezes, a informação pode permanecer bloqueada por dias.

GE: Há alguma forma de evitar isso?

Cleanto: Para evitar isso, o melhor é adotar estratégias que evitem um episódio agudo de estresse durante a prova. Nesse sentido, é fundamental que o estudante tenha uma boa noite de sono nos dias que antecedem o exame, especialmente na véspera. O sono, além de ter um efeito relaxante sobre o indivíduo no dia seguinte, é indispensável para que o conteúdo estudado torne-se uma memória estável e duradoura. Exercício físico também pode aliviar o estresse.

GE: O que fazer se der um “branco” na hora do vestibular?

Cleanto: Como disse, na maioria das vezes o branco desaparece e a informação antes bloqueada fica acessível à recordação após poucos minutos. É importante que o estudante esteja ciente de que ele não esqueceu: o conteúdo está em seu cérebro, mas temporariamente inacessível; portanto, sem pânico! Sendo assim, ele pode partir para outra questão e depois, quando provavelmente estiver mais relaxado, retornar à questão inicial. Se na ocasião a pessoa conseguir lembrar algo, por mais geral ou pouco que seja, será útil pensar ou escrever a respeito. A nossa memória funciona como uma rede de informações conectadas entre si. Então, quando o estudante elabora uma parte do conteúdo, ele está ativando uma parte dessa rede em seu cérebro, o que, por sua vez, facilita a ativação de toda a rede e a recordação do conteúdo completo.

GE: Como a ansiedade influencia a memória? Existe alguma forma de manter o controle das duas coisas e evitar ter brancos na hora da prova?

Cleanto: As pessoas mais ansiosas são muito mais propensas a terem um branco na hora da prova. Mas existem condições que aumentam a probabilidade de ocorrer esse bloqueio, geralmente porque favorecem episódios de estresse, como privação de sono e ingestão de bebidas cafeinadas (café, refrigerante de cola etc). Estudantes devem sempre evitar privação de sono, isso é péssimo para a memória; também devem evitar o exagero na hora de consumir cafeína e, nos caso dos mais ansiosos, considerar não ingerir.

Eu sempre destaco essa questão do sono porque é comum, especialmente entre os vestibulandos, a prática de “virar a noite” estudando. Além de prejudicial à saúde, isso impede a consolidação da memória para um longo prazo. O melhor a fazer é estudar durante o dia e dormir as horas que o corpo exigir durante a noite, permitindo assim que a informação torne-se um traço permanente em nossa memória, e portanto acessível meses ou anos depois. Sem o sono, a memória tende a durar pouco e logo ser esquecida.

Fonte: GE

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